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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Esconderijos

Naquele dia, vi o horizonte de um modo diferente. Não me pareceu tão longínquo, sentia-o bem mais perto do que o costume. Uma sensação de sufoco tomou-me a garganta e todo o meu ser e saí correndo. Faltava-me o ar e o espaço.

Em volta de mim pressenti a presença dos espíritos antepassados, seguiam-me e olhavam-me com dó. Esta comiseração ainda me fez mais afundar no vazio tão cheio da minha existência.

Encurralado pelas presenças não desejadas, corri. Fugi para terra de ninguém procurando uma libertação. Escondi-me por detrás de mim mesmo tentando enganar os perseguidores, mas os fantasmas do meu desassossego não me largavam.

Cansado, abrandei o passo. Exausto, mal punha pé ante pé. E de repente, senti-me afundar na terra. O Horizonte ainda estava perto demais, as presenças ainda continuavam ali, mas como de uma maneira mágica e solene, tudo parou. Eu afundando-me na terra tendo os meus fantasmas como testemunhas.

Mas, sentindo-me a afundar, eu não perdia o horizonte de vista, eu continuava sentindo as presenças e olhei os meus pés! Continuavam em solo firme, a sensação de afundamento nada tinha a ver com a realidade do momento. Eu continuava a cair sem sair do mesmo lugar. Deixei-me ir neste abandono, e sentei-me. Ouvi os meus fantasmas murmurarem:

- «Está em solo sagrado».

E aquela expressão “solo sagrado” bateu-me com a força de um martelo, despertando-me dos meus medos, e meditei, e senti.

Senti o sacrossanto do lugar, mas principalmente senti porque é que o solo era sagrado: nunca antes tinha sido pisado por ser vivo. Era um refúgio que fez parar a minha fuga. O horizonte parou a sua aproximação e os fantasmas a sua perseguição. Mas estavam ali, esperando por mim.


Olhei para dentro de mim, procurando uma porta por onde pudesse entrar, um canto mais escuro e sombrio onde me esconder, mas havia a luz! Cerrei os olhos com força e a luz sumiu. Mas havia o som!
Cerrei os ouvidos e o som desapareceu. Mas havia o odor! Tapei o nariz e os aromas desvaneceram-se.
Quando os sentidos começaram a ignorar as solicitações externas, foi surgindo um som, um arfar grave e cavernoso. Logo percebi que estava ouvindo o som da minha respiração assustada. E parei de respirar. Quando parecia que o som se tinha ido, vem um bater. Um bater ritmado, que me tomou a mente e a alma. Com tristeza percebi que estava ouvindo o meu coração. E agora? Como fazer para o parar?

Uma dor apoderou-se de mim, ao entender que para conseguir a libertação da vida, teria que perder essa mesma vida.

Foi então que ouvi rir atrás de mim. Virei-me de repente e vi-me a mim mesmo em forma de menino. Uma imagem sorridente, que me falou em ar de troça:

- És uma besta! Vem... vem brincar! - disse aquele menino-Eu

Levantei-me e olhei em volta. Não vi mais fantasmas e o horizonte lá estava como sempre, longínquo e inatingível.

(Henrique Moreira - 1990)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Testemunha Silenciosa

Apreensiva, ela tentava afastar os seus receios com um cantarolar nervoso. Embora fizesse aquele caminho muitas vezes, sentia-se sempre apreensiva. O local já tinha sido palco de atrocidades que nunca chegaram a ser resolvidas.

Era um parque que, embora bem iluminado, tinha muitos recantos escuros e sombrios que no seu imaginário escondiam riscos incontáveis. Um imaginário, que era alimentado por fatais realidades passadas com outras mulheres antes dela.

Ela não sabia. Eu não ainda sabia. Mas ele sabia bem o que ia acontecer de seguida.
Escondido por detrás de uma árvore que ladeava o caminho confundindo-se com o pardacento do lugar, ele esperava por ela.

Há algum tempo que ele a seguia, conhecendo-lhe os hábitos, os horários, os passos, os lugares e os caminhos. Ele que a tinha eleito para nessa noite ser rainha, esperava-a de navalha afiada e pronta.

Entendi então o que iria passar-se, já o tinha visto fazer coisas igualmente incompreensíveis para mim.

Perdendo a curiosidade, bati asas e voei para outra árvore.

(Henrique Moreira - 2001)

domingo, 3 de julho de 2011

Teresa

Na foto a actriz Teresa Wright (1918-2005), vencedora do Óscar para a Melhor Actriz em Papel Secundário no filme Mrs Miniver (1942) de William Wyler







“Cuidado com aquele que tem o hábito de ler os seus versos em público,
seguramente é pessoa com outros defeitos”.
(R.A.Heilein)

Eu e a Teresa costumávamos conversar muito. Como só nos encontrávamos nas férias de Verão, usufruíamos com um prazer sempre renovado aquelas noites quentes. Ao mesmo tempo, relembrávamos tudo quanto se tinha passado connosco no resto do ano. Falávamos dos novos amigos feitos e das esperanças despontadas com essas novas amizades; do que de bom e de mau nos tinha acontecido, dos novos planos para o futuro próximo, etc.
Trocávamos impressões e ouvíamos sedentos os comentários um do outro.
Era uma amizade perfeita, não comungávamos de todas as opiniões, mas respeitávamos o que o outro pensava sem ajuizar valores.
Conversávamos abertamente sobre todos os temas: Ela falou-me do trauma da sua primeira experiência sexual e eu do meu primeiro fracasso; contava-me sobre os seus desamores e eu dos meus desesencontros.
Conforme a nossa educação e cultura foram sendo aprimoradas, iniciámos discussões de âmbito científico e filosófico, e de cada vez nos sentíamos mais próximos um do outro.
No nosso terceiro Verão juntos, e depois de termos verificado como nos dávamos bem, falámos na hipótese de adicionar o sexo à nossa amizade. Chegámos à conclusão que não, ambos gostávamos muito dos prazeres da carne, mas concluímos que se isso entrasse naquela relação, iríamos perder tudo o resto que nos unia - anos depois veríamos que essa tinha sido uma das mais duras e acertadas medidas que tínhamos tomado, mas isso é uma outra história.
Parecia que uma amizade assim não podia ter segredos, mas enganei-me. Teresa tinha um segredo que só descobri por um acaso e após muitos anos de relacionamento: ela escrevia.
Quando a confrontei com essa descoberta ela não a desmentiu, mas surpreendeu-me a justificação para que nunca me tivesse falado disso:
«Escrever é para mim um acto muito íntimo. Uso-o para registrar os meus conhecimentos, sentimentos e emoções do momento. Sejam estes registos saudáveis ou completamente podres, eu me sirvo deles para testar a minha evolução como ser humano. Por isso mesmo, é coisa que faço sempre em privado e tendo depois, sempre o cuidado de lavar muito bem as mãos».
Perante as minhas reclamações, concluiu:
«Um poema de amor, por muito bem declamado que seja, tem sempre menos força que um insulto bem dirigido. Ler ou dar a ler o que escrevo, revelaria a maneira como me vejo, e delataria as sombras que vejo em mim. Como tal, deixo essa apreciação para quando eu não puder fazer mais nada em relação a isso».
Hoje, sou casado com ela. Temos três filhos e dois netos; passámos por duas hipotecas e uma guerra; assistimos ao pousar do homem na Lua e à queda do bloco Soviético; à Sexta-feira ela ainda coloca o seu vestido de beijar para nos amarmos como quando éramos jovens. Mas apesar de tudo isto, ainda não consegui ler uma única linha escrita por ela.

(Henrique Moreira - 2001)