Apreensiva, ela tentava afastar os seus receios com um cantarolar nervoso. Embora fizesse aquele caminho muitas vezes, sentia-se sempre apreensiva. O local já tinha sido palco de atrocidades que nunca chegaram a ser resolvidas.
Era um parque que, embora bem iluminado, tinha muitos recantos escuros e sombrios que no seu imaginário escondiam riscos incontáveis. Um imaginário, que era alimentado por fatais realidades passadas com outras mulheres antes dela.
Ela não sabia. Eu não ainda sabia. Mas ele sabia bem o que ia acontecer de seguida.
Escondido por detrás de uma árvore que ladeava o caminho confundindo-se com o pardacento do lugar, ele esperava por ela.
Há algum tempo que ele a seguia, conhecendo-lhe os hábitos, os horários, os passos, os lugares e os caminhos. Ele que a tinha eleito para nessa noite ser rainha, esperava-a de navalha afiada e pronta.
Entendi então o que iria passar-se, já o tinha visto fazer coisas igualmente incompreensíveis para mim.
Perdendo a curiosidade, bati asas e voei para outra árvore.
(Henrique Moreira - 2001)
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Errare
Queria pensar sempre certo
fugir deste meu lado errado
mas o erro mora bem perto
e de coisa certa disfarçado
Errando em caminho forçado
limito o erro p´lo que é certo
mas erro sempre um bom bocado
por manter o coração aberto
De tanto errar não me acerto
há pois um erro em mim decerto
que me faz ser sempre errado
quiçá p'lo coração aberto
e assim por demais desperto
o deva então manter fechado
(Henrique Moreira - 2009)
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
02 de Dezembro de 2011
Contrariamente ao que costumo fazer e tendo em conta que só eu leio este blog, vou iniciar aqui uma série de crónicas relatando algumas das minhas experiências no mundo teatral.
E para começar, como não podia deixar de ser, vou falar sobre a minha primeira, e até agora única, experiência como actor.
Devo dizer que ser actor, isto é, entrar num palco ou praticável e representar um personagem, nunca foi algo que estivesse na minha lista de coisas a fazer.
Amo o teatro, sem dúvida, mas sempre fui e sempre me vi como um elemento de “backstage” ou de “régie”. Pensar-me sob os olhares de uma audiência é algo que me faz brotar espontaneamente borboletas no estômago.
Confesso que aceitei este desafio, porque inicialmente estaria só como figurante e não havendo trabalho técnico a fazer, não queria perder mais uma oportunidade de fazer o que gosto. Mas logo a seguir colocaram-me um outro repto: criar um texto para uma personagem. Ah! Ia-me esquecendo de referir que esta apresentação foi dada a crianças carentes, numa festa organizada para angariação de fundos para as mesmas. E o tema, como seria inevitável, foi o Natal.
O texto que criei para a mendiga saiu tão bem, que logo a seguir pediram-me para escrever o resto do texto da apresentação. Não foi nada demais, mas foi também a minha primeira experiência como autor.
A coisa começou a complicar-se quando a actriz, para a qual escrevi o monólogo da mendiga, acabou por desistir e me sugeriram para ser eu a dizer esse texto. Inconscientemente aceitei.
Quando a hora da apresentação se aproximou e com somente dois ensaios, as borboletas pularam do estômago para todo o meu corpo. Mas havia duas coisas que me sossegavam: em primeiro lugar estar inserido num grupo espectacular, com actores e actrizes magníficos e que ao mesmo tempo eram (e continuam sendo) pessoas deliciosas; e em segundo, estar dizendo um texto meu (foi isto o que me safou).
Quando chegou a minha hora, as borboletas pareciam morcegos e o medo de esquecer o texto foi substituído pelo receio de ter esquecido como andar.
Como até aquele momento todo o espectáculo tinha corrido tão bem e como eu não queria de maneira alguma manchar a representação já feita, uma força surgiu não sei de onde e dei os primeiros passos… olhei os trapos que trazia vestidos… sorri tristemente e disse:
- Sou um mendigo sim! Ah! Mas já fui pastor.
(…)
Bastaram estas palavras para que os morcegos voltassem a serem borboletas e para que as borboletas voltassem a ser amor.
(Henrique Moreira – 2011)
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Pergunta-se.
Quem lida com crianças já deve ter-se confrontado com algumas situações de perguntas desenfreadas e completamente absurdas, do tipo: Porque é que o fogo queima? Porque faz barulho o relâmpago; De onde vêm os bebés? O Pai Natal existe? Etc. etc. etc.
Mas se pensarmos bem, chamamos este tipo de perguntas absurdas, porque na maior parte das vezes não sabemos a resposta, ou não temos à-vontade suficiente para darmos a resposta que conhecemos. Ficamos tão inseguros com este tipo de interrogatório, que o chamamos de absurdo e rezamos a todos os deuses ( os nossos e os dos outros ) para que a criança se distraia e nos liberte daquele sufoco.
Mas eu afirmo que, essas perguntas são as que verdadeiramente importam. Isto é tão verdade que, com o crescimento as crianças deixam de as fazer, transformando-as em outras cujas respostas são muito mais acessíveis, do tipo: Posso dormir fora? Empresta-me o carro? Posso faltar à escola? Etc.
Mas, reafirmo o que disse anteriormente, são as perguntas iniciais as verdadeiramente importantes e devemos sempre estar preparados para responder a elas, mesmo sabendo que um dias eles deixarão de as fazer.
No entanto, há crianças que durante toda a sua vida manterão este tipo de questões.
Acabarão por se tornar poetas, físicos ou filósofos.
Deus as abençoe.
(Henrique Moreira - 2011)
Mas se pensarmos bem, chamamos este tipo de perguntas absurdas, porque na maior parte das vezes não sabemos a resposta, ou não temos à-vontade suficiente para darmos a resposta que conhecemos. Ficamos tão inseguros com este tipo de interrogatório, que o chamamos de absurdo e rezamos a todos os deuses ( os nossos e os dos outros ) para que a criança se distraia e nos liberte daquele sufoco.
Mas eu afirmo que, essas perguntas são as que verdadeiramente importam. Isto é tão verdade que, com o crescimento as crianças deixam de as fazer, transformando-as em outras cujas respostas são muito mais acessíveis, do tipo: Posso dormir fora? Empresta-me o carro? Posso faltar à escola? Etc.
Mas, reafirmo o que disse anteriormente, são as perguntas iniciais as verdadeiramente importantes e devemos sempre estar preparados para responder a elas, mesmo sabendo que um dias eles deixarão de as fazer.
No entanto, há crianças que durante toda a sua vida manterão este tipo de questões.
Acabarão por se tornar poetas, físicos ou filósofos.
Deus as abençoe.
(Henrique Moreira - 2011)
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Estranha sensação
Hoje acordei sentindo uma imensa saudade de ti.
Procuro em mim as tuas imagens, mas és como um rio que corre pela minha vida:
a água que passou, não é mais a que passa. O mesmo rio, mas não a mesma água.
E a cada momento de saudade, "esburaca-se" mais o meu peito.
Estranha esta sensação: sedento nas margens de um rio.
Hoje acordei sentindo uma enorme saudade tua.
É como se a tua invisibilidade me abraçasse, mas o acalanto longínquo, distante.
Como estar esfomeado de vida e só sentir os aromas da ambrósia.
Aumenta a sede, a fome, o apetite e a saudade.
Hoje fui acordado pela Saudade
Acordou-me a Saudade com palavras estranhas:
"Só os que amam sentem a minha presença."
Acordou-me a Saudade com palavras singulares:
"Não me guardes no peito, solta-me em palavras."
Senti a presença, soltei as palavras...
Mas a Saudade tinha enlouquecido de saudades.
Não as podendo "matar", definho com elas...
(Henrique Moreira - 2011)
Procuro em mim as tuas imagens, mas és como um rio que corre pela minha vida:
a água que passou, não é mais a que passa. O mesmo rio, mas não a mesma água.
E a cada momento de saudade, "esburaca-se" mais o meu peito.
Estranha esta sensação: sedento nas margens de um rio.
Hoje acordei sentindo uma enorme saudade tua.
É como se a tua invisibilidade me abraçasse, mas o acalanto longínquo, distante.
Como estar esfomeado de vida e só sentir os aromas da ambrósia.
Aumenta a sede, a fome, o apetite e a saudade.
Hoje fui acordado pela Saudade
Acordou-me a Saudade com palavras estranhas:
"Só os que amam sentem a minha presença."
Acordou-me a Saudade com palavras singulares:
"Não me guardes no peito, solta-me em palavras."
Senti a presença, soltei as palavras...
Mas a Saudade tinha enlouquecido de saudades.
Não as podendo "matar", definho com elas...
(Henrique Moreira - 2011)
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Tempestad(e)
O vento do Norte sopra forte e impiedoso e ele sente o seu corpo balançar ao sabor dos seus repentinos excessos. Semicerra os olhos e tenta vislumbrar de onde vem tanta violência. Vê o negro recorte de uma frente escura que se aproxima com pressa em deixar assinatura na sua fragilidade.
O seu primeiro impulso é fugir, procurar abrigo, mas algo o segura. Vozes dizem-lhe que nunca conseguirá testar a solidez do seu chão se caminhar somente sob as cálidas carícias do Sol.
Fica e testa... e testa-se.
Tudo acontece com uma estranha rapidez e sobrevive.
Continua ele, mas ao mesmo tempo não é mais quem era.
É por isso que ele ama tempestades. Elas mudam-no a cada rajada de vento.
(Henrique Moreira - 2010)
O seu primeiro impulso é fugir, procurar abrigo, mas algo o segura. Vozes dizem-lhe que nunca conseguirá testar a solidez do seu chão se caminhar somente sob as cálidas carícias do Sol.
Fica e testa... e testa-se.
Tudo acontece com uma estranha rapidez e sobrevive.
Continua ele, mas ao mesmo tempo não é mais quem era.
É por isso que ele ama tempestades. Elas mudam-no a cada rajada de vento.
(Henrique Moreira - 2010)
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Lobo
Como quase todo o leitor, tenho em casa três tipos de livros: os lidos e relidos; os ainda por ler e os que nunca lerei. Peguei num dos do segundo grupo. Não o escolhi bem ao acaso, limitei-me a pegar o menos volumoso, pois naquela noite sentia-me distante demais para entrar num leitura longa, coisa que sempre exige de mim muita atenção.
Olhei a capa e li “O axioma”. Satisfeito com o título sugestivo neste encontro casual, dirigi-me à poltrona das leituras para iniciar a função. Instalei-me confortavelmente, sorvi um pequeno gole de Chivas 21 que sempre reservo para estas sessões e abri o livro.
“Era um noite de tempestade...“
Foi o suficiente. Bastaram cinco palavras para que a minha viagem começasse.
«E lá estava eu num bosque, no meio de uma chuva torrencial, iluminado por relâmpagos estrondosos.
Para fugir à lama que descia a encosta não muito íngreme, eu tentava manter-me num pequeno trilho pisado por muitos caminhantes antes de mim. Não era uma tarefa fácil devido à escuridão, mas mesmo assim não me estava saindo muito mal.
Foi então que encontrei aquela clareira. Não era muito grande, mas a falta de árvores ali permitia que a luz vinda dos raios demorasse mais a extinguir-se. E foi então que o vi.
Primeiro dois pontos luminosos impossíveis de identificar, mas o relâmpago seguinte logo revelou a silhueta de um lobo.
Todas as histórias de lobos ouvidas na infância vieram-me à memória e isso foi o pior que podia ter-me acontecido. Medos antigos e irracionais tomam-me a mente e começo a tremer violentamente. Novo relâmpago e vejo que afinal o lobo não está só. Vejo dois. Não, são quatro... uma alcateia, feras prontas a devorarem-me.
O terror faz-me cair para trás e abro desesperadamente os olhos... »
Ainda estou na minha sala, sentado na minha poltrona, vejo “O axioma” caído aos meus pés e o copo de Chivas em cima da mesinha. Faço várias inspirações violentas para retomar o ritmo cardíaco e sossegar do susto. Ainda a tremer bastante, consigo beber um gole de whisky, que ajudou bastante na recuperação.
Mais calmo, recosto-me e fico pensando no que aconteceu. Fecho os olhos e...
«Encontro-me novamente naquela clareira. A tempestade está mais forte do que nunca e as minhas preocupações aumentam.
Olho para o lado e vejo a minha companheira tentando proteger as nossas duas crias da água que a pequena gruta onde estávamos, não abrigava completamente.
Mas a minha preocupação não era agora a água, mas sim o homem que estava do outro lado da clareira. A ancestralidade da minha herança identificava-o como um matador de lobos, um predador implacável que devia sempre ser evitado.
Mas agora era diferente, eu tinha uma família e não ia deixá-los à mercê daquela fera.
Lentamente levanto-me e dirijo-me em sua direcção. Talvez tenha feito isso energicamente demais, pois derrubo algo que distrai a minha atenção, ao tentar descobrir o que é...»
Vejo que ainda estou na minha sala. Mas estou de quatro gatinhando em direcção à porta.
Raios! Derrubei o candeeiro de pé alto. Mas... o que estou fazendo?
Lembrei-me do lobo e senti-me embaraçado... a minha imaginação estava me levando para esferas muito estranhas.
Ainda bem que estava sozinho em casa e ninguém assistiu.
Recordando esta peripécia, fico pensando: de que lado da clareira estava a irracionalidade?
(Henrique Moreira - 1985)
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