Contrariamente ao que costumo fazer e tendo em conta que só eu leio este blog, vou iniciar aqui uma série de crónicas relatando algumas das minhas experiências no mundo teatral.
E para começar, como não podia deixar de ser, vou falar sobre a minha primeira, e até agora única, experiência como actor.
Devo dizer que ser actor, isto é, entrar num palco ou praticável e representar um personagem, nunca foi algo que estivesse na minha lista de coisas a fazer.
Amo o teatro, sem dúvida, mas sempre fui e sempre me vi como um elemento de “backstage” ou de “régie”. Pensar-me sob os olhares de uma audiência é algo que me faz brotar espontaneamente borboletas no estômago.
Confesso que aceitei este desafio, porque inicialmente estaria só como figurante e não havendo trabalho técnico a fazer, não queria perder mais uma oportunidade de fazer o que gosto. Mas logo a seguir colocaram-me um outro repto: criar um texto para uma personagem. Ah! Ia-me esquecendo de referir que esta apresentação foi dada a crianças carentes, numa festa organizada para angariação de fundos para as mesmas. E o tema, como seria inevitável, foi o Natal.
O texto que criei para a mendiga saiu tão bem, que logo a seguir pediram-me para escrever o resto do texto da apresentação. Não foi nada demais, mas foi também a minha primeira experiência como autor.
A coisa começou a complicar-se quando a actriz, para a qual escrevi o monólogo da mendiga, acabou por desistir e me sugeriram para ser eu a dizer esse texto. Inconscientemente aceitei.
Quando a hora da apresentação se aproximou e com somente dois ensaios, as borboletas pularam do estômago para todo o meu corpo. Mas havia duas coisas que me sossegavam: em primeiro lugar estar inserido num grupo espectacular, com actores e actrizes magníficos e que ao mesmo tempo eram (e continuam sendo) pessoas deliciosas; e em segundo, estar dizendo um texto meu (foi isto o que me safou).
Quando chegou a minha hora, as borboletas pareciam morcegos e o medo de esquecer o texto foi substituído pelo receio de ter esquecido como andar.
Como até aquele momento todo o espectáculo tinha corrido tão bem e como eu não queria de maneira alguma manchar a representação já feita, uma força surgiu não sei de onde e dei os primeiros passos… olhei os trapos que trazia vestidos… sorri tristemente e disse:
- Sou um mendigo sim! Ah! Mas já fui pastor.
(…)
Bastaram estas palavras para que os morcegos voltassem a serem borboletas e para que as borboletas voltassem a ser amor.
(Henrique Moreira – 2011)